7.7.06

A viúva de Mozart, e outras histórias



Constanze Weber Mozart era (é?) aquela senhora de touca branca, que está ali do lado esquerdo e, na sua edição de hoje o The Guardian conta como esta inacreditável fotografia, feita em 1840, pode agora ser recuperada - através de uma cópia, uma vez que o daguerreótipo original já se terá desfeito há muito.

Na incontornável secção de Artes do The Guardian, uma outra história de flagrante importância: Robert Thicknesse conseguiu finalmente reconstituir um coro grego , nos seus aspectos cénicos, musicais e prosódicos. O resultado será emitido pela Radio 4 na próxima terça, dia 11.

Em Liverpool, que se prepara para ser Capital Europeia da Cultura em 2008, demitiu-se o director artístico do projecto.

Em Nova Iorque, onde continua em exibição no Museu de Arte Moderna, até 11 de Setembro, a exposição dedicada ao movimento Dada, a galeria Francis M. Naumann Fine Art decidiu promover, em complemento, mas só até 28 de Julho, uma outra exposição sobre as vidas e obras das mulheres Dada que habitaram aquela cidade na primeira metade do século XX: Beatrice Wood, Clara Tice, Florine Stettheimer, Mina Loy, Katherine S. Dreier, e a escandalosa Baronesa Elsa von Freytag-Loringhoven. O New York Times fala da exposição e traça um breve perfil destas protagonistas (quase) desconhecidas.

Numa outra página, também fala do que está a acontecer na Feira de Arte de Basileia.

6.7.06

Danças Ocultas em ensaio (video 09.02.2003)

Imagens recolhidas durante o trabalho de campo para a preparação de Alento (ed. Assírio e Alvim, 2003). Às 00h10, na Casa do Rio, em Águeda, numa noite de muito frio e pouca luz. Duarte Belo chegaria na manhã seguinte para uma sessão fotográfica com os músicos dos Danças Ocultas: da esquerda para a direita, Artur Fernandes, Filipe Ricardo, Filipe Cal e Francisco Miguel Silva.

4.7.06

Inteligência eléctrica - 2



Na foto, o T-Zero, protótipo californiano de veículo eléctrico que pode competir com Corvettes e Ferraris: tem 200 cavalos de potência e demora menos de 4 segundos a chegar dos 0 aos 100 kms/h.

A notícia vem na Forbes, mas não é um exclusivo. Na costa leste dos EUA está ao rubro a corrida entre construtores independentes para conseguirem fabricar automóveis que sejam simultaneamente potentes e não-poluentes, e que tenham um preço devidamente concorrencial.

Entre os financiadores de um outro projecto - o da Tesla Motors - contam-se os fundadores do Google, segundo conta a Technology Review.

Ver também: Inteligência eléctrica, Inteligência eléctrica - o antídoto.

Mundos virtuais - 1






Algo de estranho aconteceu durante este fim de semana a muitas centenas de subscritores da mailing-list da Ananana - uma muita especializada loja de discos lisboeta - e, aparentemente, também a muitas centenas de não-subscritores: uma desconfiguração, ou um vírus, como muitos temeram, fez com que os endereços e as mensagens de muitos fossem parar às caixas de correio de muitos outros. O que, inevitavelmente, cresceu de forma exponencial com a multiplicação dos protestos e dos pedidos de remoção da lista.

Entre sábado e domingo houve portanto troca e partilha de choros, convulsões, insultos, ameaças e, felizmente, muito humor.

Houve respostas automáticas que foram automaticamente redistribuídas por toda esta comunidade improvisada e imprevista.

Houve reconhecimentos: também estás aqui? (E quem se admirasse por encontrar ali, a protestar, o Abel Barros Baptista)

Houve quem aproveitasse para disseminar poesia.

Houve quem aproveitasse para disseminar pornografia.

Houve quem registasse o evento num blog (antes de mim).

Houve quem pedisse para não ser removido da lista.

Houve até quem, do lado de lá do Atlântico, pasmasse com o que estava acontecendo:
Pessoal,
não estou entendendo nada do que está acontecendo.
primeiro um vírus louco. depois pessoas felizes e contentes a trocar e-mails.
quando vejo, tudo isso vem de Ananana.
bom. de qualquer forma estou grato por estar aqui. aprecio muito as resenhas. e, infelizmente, não tenho como estar fisicamente com vocês, pois estou na América Latina, Brasil. Mas continuem a falar que eu estou aqui a observar.
beijos grandes,
- João Mognon.


Houve quem propusesse uma informal jantarada no Bairro Alto, com factura a cargo da Ananana. Ou um flash meeting.

No fim da aventura - no fim do fim de semana - a Ananana resolveu o problema; mas por essa altura já eram muitas as vozes desta comunidade espontânea que reclamavam a criação de um forum. Permanente?

Godard: exposto







Quando, em 1900, Claude Monet mostrou ao seu amigo Edgar Degas a última novidade do seu domicílio - um telefone - este reagiu placidamente, dizendo: «Já percebi como funciona. Aquilo toca e você tem de se levantar».

Desde a semana passada, a frase está afixada numa parede do segundo piso do Centro Pompidou, em Paris, e integra uma das instalações que compõem a mostra «Voyages en utopie: Jean-Luc Godard 1946-2006», em curso até 14 de Agosto; a qual acompanha a exibição, no piso inferior, de uma retrospectiva integral do conhecido mestre - 140 filmes.

Uma notícia na The Economist faz alusão a desorientações criativas e dissensões corporativas que terão motivado uma profunda alteração dos planos originais para a exposição/instalação - cujo tema inicial seria uma «Arqueologia do Cinema», em provável circuito com o seu notável «Histoire(s) du cinéma» (1988-1998).

É porém no sítio do Centro Pompidou que se pode encontrar a programação, bem como informações mais detalhadas, e inevitáveis curiosidades: por exemplo, na Galeria Brancusi do mesmo centro está patente, até Setembro, uma exposição de James Turrell.

1.7.06

O grotesco: Francis Bacon vs. Big Brother








Ainda no The Guardian, e a propósito da exposição, na Galeria Gagosian, em Londres, dos trípticos de Francis Bacon (aqui ao lado num dos seus auto-retratos), Gordon Burn publica um interessantíssimo artigo, intitulado The Human Zoo, onde a aproximação radical à natureza humana levada a cabo por este pintor é posta em paralelo com o programa televisivo Big Brother, que o Channel 4 serve actualmente ao público britânico, e no qual até já esteve envolvido um conhecido político local - provavelmente seguindo o emérito exemplo do nosso ex-autarca de Marco de Canaveses.

Lawrence Ferlinghetti tem 87 anos...






... e foi entrevistado por Nicholas Wroe para o The Guardian. O editor de Allen Ginsberg, de Pasolini e de tantos outros, conta que quando chegou a San Francisco, em 1951, não usava chapéu, mas sim boina. E que, não apenas por isso, mas também por isso, não pensa em si mesmo como o primeiro dos Beats, mas antes como o último dos boémios.

Vigilância e controlo (1)



Eis o que poderá ser uma das maiores glórias do actual Campeonato do Mundo de Futebol: ontem, após a conclusão do jogo por penalties, os jogadores da Alemanha e da Argentina envolveram-se numa violenta confrontação no centro do relvado.

As imagens, ao que tudo indica, foram censuradas: não surgiram na transmissão televisiva, não surgiram nos resumos do jogo e, como não apareceram na televisão, também não tiveram interesse algum para os nossos empenhados «comentaristas».

Portanto, a partir daqui de Lisboa, é como se nada tivesse acontecido.

Felizmente, pode ler-se o relato que o The Guardian fez do sucedido. E também o relato do Der Spiegel (em inglês), que inclui até uma pequena galeria fotográfica.

29.6.06

A frescura no rosto

Regresso aos Açores - 2

Lema inscrito sobre o balcão de uma simpática loja de fotografia em Ponta Delgada:

«Tudo o que não for excelente é inaceitável»

22.6.06

Em busca do robô desconhecido










A Microsoft apresentou esta semana o seu novo Robotics Studio, que já está disponível para descarga. Começam a perceber-se as novas orientações estratégicas da empresa de Bill Gates para os próximos anos.

20.6.06

Chegou o comentador de futebol robótico!





A Technology Review publicou hoje um interessantíssimo artigo sobre uma das mais recentes aventuras no campo da robótica - já não o robô que sabe jogar futebol (para isso até já há um campeonato próprio), mas o robô bípede e poliglota, dotado de percepção tridimensional, capaz de reconhecer rostos e cores, e, o que é mais, habilitado a comentar uma partida enquanto ela decorre.

A bem dizer, não se trata apenas de um robô, mas de dois, chamados Ami e Sango, que foram apresentados publicamente na semana passada, em Bremen, durante a Robo Cup 2006 e conseguem até coordenar as suas acções ao longo do jogo. Foram construídos pela Sony e programados por uma equipa de cientistas computacionais da Carnegie Mellon University, em Pittsburgh.

Embora o artigo seja omisso neste ponto, é mais que provável que Ami e Sango saibam falar português - ou não fosse a equipa da Carnegie Mellon liderada pela Professora Manuela Veloso, cuja carreira docente se iniciou aqui em Lisboa, no Instituto Superior Técnico.

Ah, quanto aos resultados finais da Robo Cup 2006, talvez seja interessante notar que duas equipas portuguesas se destacaram: a FC Portugal conquistou o primeiro lugar na categoria de Simulação Tridimensional; e a 5dpo ficou em segundo na categoria de robôs de pequena dimensão. Se os humanos se portarem como os robôs, temos taça...

O melhor romance (americano) dos últimos 25 anos



«Beloved», de Toni Morrison (na foto), foi eleito como o melhor romance norte-americano dos últimos 25 anos, por votação de cerca de duzentos escritores, críticos e editores, que foram arregimentados para tal tarefa no início deste ano pelo editor da secção de Livros do New York Times, Sam Tanenhaus.

Os resultados da votação são curiosos a vários títulos (entre eles o de permitir decifrar qual é o actual cânone da literatura made in USA), e guardam diversas surpresas. Por exemplo: Philip Roth é o autor com mais livros citados, na qualidade de pretendentes ao título. O qual, no entanto, agora já tem dona...

19.6.06

Mapeando Bono!!






Recorrendo ao sistema de câmaras de vigilância da cidade de Dublin, e sabendo de antemão que uma das grandes atracções que a capital irlandesa oferece aos seus visitantes é a possibilidade de se cruzarem na rua com o vocalista dos U2, um grupo de mentes bem humoradas criou o Bono Probability Positioning System version 2 - também conhecido como Google Bono.

Agora, todos nós podemos avaliar as probabilidades de encontrar o cantor, antes mesmo de entrarmos para o avião...

Macacos dançantes






Um video amador de baixa resolução, feito apenas com imagens recolhidas na internet, pode exprimir uma mensagem pertinente sobre a nossa civilização? Pode. Para conferir, é vê-lo aqui.

Ah, e tem legendas em português...

O Maoísmo Digital






Jaron Lanier publicou há três semanas atrás, na revista Edge, um interessante artigo sobre as inevitáveis limitações do colectivismo digital - como no caso da Wikipedia - e as aberrações a que ele conduz. Vale a pena ler, aqui. E depois meditar e debater.

18.6.06

Fábula


Tem a mentida Fortuna muitos queixosos e nenhum agradecido. Chega este descontentamento até às bestas, mas a quem melhor? O mais queixoso de todas é o mais simples. Ia-se este queixando de corrilho em corrilho, e achava não só compaixão, mas aplauso, especialmente no vulgo.

Um dia, pois, aconselhado de muitos e acompanhado de nenhum, dizem que se apresentou na audiência geral do soberano Júpiter. Aqui, profundamente humilde (que o é de agradecer a um néscio), e outorgada a inestimável licença de ser escutado, pronunciou mal esta pior traçada arenga:

«Integérrimo Júpiter, que justiceiro e não vingador te desejo: Aqui tens ante tua majestosa presença, o mais infeliz, sobre ignorante, dos brutos, solicitando não tanto a vingança de meus agravos quanto o remédio de minhas desditas. Como passa, oh Númen eterno!, tua inteireza pela impiedade da Fortuna, só para mim cega, tirana e até madrasta, já que pela natureza me fez o mais simples dos animais, que é dizer quanto se pode? Por quê há-de esta cruel, a tanta carga, ajuntar a sobrecarga de desditado, violando o uso e atropelando o costume? Me faz ser néscio e viver descontente. Persegue a inocência e favorece a malícia: o soberbo Leão triunfa; o Tigre cruel vive; a Raposa, que a todos engana, de todos se ri; o voraz Lobo passa. Eu só, que a ninguém faço mal, de todos o recebo. Como pouco, trabalho muito; nada do pão, tudo do pau. Traz-me desalinhado, e eu, que me sou feio, não posso aparecer entre gentes, e sirvo de acarrear vilões, que é o que mais sinto.»

Comoveu grandemente esta lastimosa proclamação a todos os circunstantes. Só Júpiter severo, que não se imuta assim vulgarmente, alargou a mão sobre que havia estado, não tanto recostado, quanto reservando para a outra parte aquele ouvido: fez ademane que chamassem para dar seu descargo à Fortuna.

Partiram em busca dela muitos soldados, estudantes e pretendentes; advieram por muitas partes e em nenhuma a achavam. Perguntavam a uns e a outros, e nenhum sabia dar razão. Entraram na casa do poderoso Mando, e era tanta a confusão e a pressa com que todos, sem discorrer, se moviam, que não acharam quem lhes respondesse, nem até os escutasse, ainda que toparam com muitos. Discorreram eles que sem dúvida não devia de estar entre tanto desassossego, e não se enganaram. Passaram à casa da Riqueza, e aqui lhes disse o Cuidado que havia estado, mas mui de passagem, não mais senão para encomendar alguns molhos de espinhos e uns taleigões de sovelas. Entraram na quinta da Formosura, que está mui próxima do sexto, para pagá-lo pelas setenas; toparam com a Necedade, e, sem perguntar mais, passaram à da Sabedoria; respondeu-lhes a Pobreza que tão pouco estava ali, porém que de dia a dia a aguardavam.

Só lhes restava já outra casa, que estava sozinha à direita aceira. Chamaram, por estar mui cerrada, e saiu a responder-lhes uma tão formosa donzela, que creram ser alguma das Três Graças, e assim, lhe perguntaram qual era. Respondeu com notável agrado que era a Virtude. Nisto, saía já de lá dentro, e do mais interior, a Fortuna, mui risonha. Intimaram-lhe o mandato e obedeceu ela como sucede, voando às cegas.

Chegou mui reverente ao sacro trono, e todos os do cortejo lhe fizeram muitas cortesias, e até salemas, por recambiá-las. «Que é isto, ó Fortuna! – disse Júpiter – que cada dia hão-de subir a mim as queixas de teu proceder? Bem vejo quão dificultoso é o assunto de contentar, quanto mais a muitos, e a todos impossível. Também me consta que aos mais lhes vais mal porque lhes vais bem, e em lugar de agradecerem o muito que lhes sobra, se queixam de qualquer pouco que lhes falte. É abuso entre os homens nunca pôr os olhos no saco das desditas dos outros, senão no das felicidades, e ao contrário em si mesmos; miram o luzimento do ouro de uma coroa, mas não o peso ou o pesar. Por tanto, eu nunca faço caso de suas queixas, até agora; que as deste, de todas as maneiras infeliz, trazem alguma aparência.»

Mirou-o a Fortuna de revés; ia a sorrir-se, mas, advertindo aonde estava, mediu-se, e, mui recomposta, disse: «Supremo Júpiter, uma palavra só quero que seja meu descargo, e seja esta: se ele é um asno, de quem se queixa?» Foi mui rida por todos a resposta, e pelo próprio Jove aplaudida, e em confirmação dela e ensinança do néscio acusador, mais que consolo, lhe disse:

«Infeliz bruto, nunca vós fôreis tão desgraçado se fôreis mais avisado. Andai e procurai ser de hoje em diante desperto como o Leão, prudente como o Elefante, astuto como a Raposa e cauto como o Lobo. Disponde bem dos meios, e conseguireis vossos intentos; e desenganem-se todos os mortais – disse, alçando a voz – que não há mais dita nem mais desdita que prudência ou imprudência!»


(Capítulo XXIII de «O Discreto», de Baltazar Gracián (1646), em tradução, prólogo e notas de Jorge P. Pires, ed. Frenesi, Lisboa, 2005)

Breve adenda à carta aberta ao DN

Não tenho por hábito corresponder-me com quem não se assina.

De qualquer modo - e para evitar a maçada de ter de voltar a rejeitar «comentários anónimos» - esclareço que o meu «Um Futuro Maior» não foi recenseado no jornal de que eu era então colaborador (o Expresso) senão no ano seguinte à sua publicação.

Adianto até que a recensão foi assinada pelo já falecido Rui Rocha e, apesar de me ter desgostado, não a contestei, precisamente por achar que, de todos os locais em que o poderia fazer, aquele era o menos indicado. E também por já então pensar que, em geral, os factos têm sempre um peso superior ao dos comentários.

6.6.06

Carta (agora aberta) ao Diário de Notícias




Exmos. Senhores,

Durante a leitura do suplemento do Diário de Notícias da passada sexta-feira, 2 de Junho de 2006, fui surpreendido, na página 25, pelo teor da referência ao meu livro «Um Futuro Maior», publicado em Novembro de 1995, e que aí surge incluído num rol de «biografias musicais», em termos que me merecem, mais do que um comentário, dois esclarecimentos urgentes.

Com efeito, o meu livro não é uma biografia, nunca o apresentei como tal, e, se alguma preocupação formal tive aquando da sua feitura, foi exactamente a de não «fazer uma biografia» – e muito menos uma «biografia musical», conceito que não consigo entender inteiramente. O esclarecimento poderá parecer tardio, mas, segundo creio, ao longo dos já quase onze anos decorridos desde a sua publicação, o dito livro nunca foi objecto de qualquer recensão, análise ou tentativa de interpretação nas páginas do DN. Limito-me, pois, a aproveitar a oportunidade.

Esclareço também que «Um Futuro Maior» foi retirado do mercado há mais de um ano, tendo eu e Pedro Ayres Magalhães adquirido os exemplares que ainda restavam em armazém. Muito estranho, pois, que o meu livro surja aparentemente referido como uma das obras encontradas nas livrarias que Nuno Galopim visitou na última semana. À excepção de um ou outro exemplar que ainda possa ser localizado em saldos ou em alfarrabistas, dificilmente ele poderá ser localizado em qualquer livraria, seja em semanas passadas ou futuras.

Observo ainda que o nome com que assinei o livro é citado incorrectamente no referido artigo.

Por último, parece-me bastante infeliz, e triste, que tal referência integre uma sequência de artigos, entre as páginas 22 e 25 do mesmo suplemento, que visam promover, explicitamente ou por analogia, e sem grande pudor, o novo livro do mesmo Nuno Galopim – o que não teria importância de maior, caso ele não acumulasse ainda as funções de editor do referido suplemento.

A este respeito, ocorre-me pois recordar o teor do ponto 10. do Código Deontológico do Jornalista, o qual, julgo eu, continua em vigor, e que sempre me pareceu particularmente explícito nesta matéria: «O jornalista deve recusar funções, tarefas e benefícios susceptíveis de comprometer o seu estatuto de independência e a sua integridade profissional. O jornalista não deve valer-se da sua condição profissional para noticiar assuntos em que tenha interesses».

Os melhores cumprimentos
Jorge Pereirinha Pires

5.6.06

Raul Indipwo (2 - o Duo Ouro Negro)










Em 1959, os amigos de infância Raul Indipwo e Milo Macmahon (ou Raul Cruz e Emílio Pereira, como foram conhecidos até 1973) fundaram em Vila Carmona, Angola o Duo Ouro Negro, cujo repertório, entre baladas e danças, era apresentado como um elenco do folclore angolano, das suas várias etnias e línguas. Milo trabalhava como regente agrícola e Raul era tesoureiro de uma firma de Luanda. Nesse mesmo ano, ao vê-los num espectáculo na capital angolana, um empresário lisboeta interessou-se pelo grupo e convenceu-os a virem actuar na Europa.

Lisboa serviu apenas como ponto de partida para uma carreira internacional que, ao longo da década de 60 os tornaria conhecidos na Europa, em África, e mesmo na América Latina e no Japão. Os primeiros discos gravados em Lisboa constituiram êxito imediato, a que se seguiram variadas exibições na rádio, na televisão e em diversas casas de espectáculos. Entre 1960 e 1963 efectuaram várias digressões na Europa, nomeadamente em Espanha (onde a Embaixada de Portugal lhes atribuiu a Medalha de Mérito), França, Suécia (onde a principal actuação foi no «Burns», em Estocolmo, com Eartha Kitt) e Finlândia, além de Angola e Moçambique. Após a gravação do álbum «Mulowa África», estrearam-se em 1965 no palco do Olympia, em Paris. Em 1966 - enquanto em Lisboa lhes era atribuído o Prémio da Imprensa - actuaram na Salle Garnier da Ópera de Monte Carlo, especialmente para os Príncipes do Mónaco, durante as comemorações do IV centenário daquele principado, e foram filmados em Paris para o programa televisivo «Les Argonauts». Em 1967 actuaram no Olympia durante três semanas em Maio e três semanas em Outubro, e participaram em vários espectáculos nas televisões europeias. Foram então convidados a actuar no II Festival Internacional de Música Pop do Rio de Janeiro, onde acabaram galardoados com a Medalha de Ouro, fazendo depois vários recitais no Teatro Cecília Meireles e no Canecão. No mesmo ano - aquele em que um dos ritmos da moda parisiense era a «kwela» lançada pelo Duo Ouro Negro - foram uma das grandes atracções internacionais convidadas a participarem no «Rendez-Vous avec Danny Kaye», um espectáculo de comemoração do 20º aniversário da UNICEF, transmitido em directo do Alhambra, em Paris, para mais de 200 milhões de telespectadores.

A partir de Paris ganharam o Canadá em 1968, com actuações em Montréal, no Teatro Maison Neuve, sendo os recitais acompanhados por excelentes críticas na imprensa. Foram assim convidados a actuar na gala de Abertura do MIDEM (então na sua terceira edição), e daí partiram para concertos em Bruxelas (Teatro Ancien Belgique), Liége e Antuérpia. Actuaram no programa «Europa 1», inaugurando um novo canal televisivo a cores em Bremen, Alemanha. Participaram também no Festival de Split, Jugoslávia, que foi transmitido em directo pela Eurovisão e Intervisão. Nesse mesmo ano, culminando uma intensa mas casuística colaboração com a RTP em programas de variedades, o Duo Ouro Negro concebeu e apresentou uma produção televisiva original, «A Rua d’Eliza», uma opereta africana com música, texto, coreografia e direcção de cena assinadas por Raul e Milo. O programa seria depois seleccionado para representar a televisão portuguesa no Festival de Milão. Antes de 1968 chegar ao seu termo, o Duo foi ainda aos Estados Unidos pela primeira vez: actuaram em Nova Iorque e em Chicago, e assinaram um contrato de representação com a Columbia Artists Management, preparando uma futura e mais intensa deslocação nos EUA.

Em 1969, na Argentina, fizeram dois recitais no Teatro Maipu, em Buenos Aires, gravaram quatro espectáculos televisivos e ainda o LP «Ouro Negro Latino», que em Portugal foi editado com o título «Sob o Signo de Yemanjá». O disco inclui a canção «El Fuego Compartido», composta para um grupo de estudantes argentinos, e também alguns trechos de Ataualpa Yupanki. Regressaram à Europa e a África para novas digressões, antes de, em Nova Iorque, actuarem no Waldorf Astoria.

Foi apenas em 1970 que consumaram a sua almejada digressão norte-americana. A 16 de Janeiro desse ano, a revista «Nova Antena» publicava uma reportagem da conferência de imprensa dos cantores no aeroporto de Lisboa, de partida para dois meses de digressão no Canadá e Estados Unidos. O empresário do grupo, Carlos Robalo, dizia aos repórteres presentes que aquilo que iriam ganhar era «O suficiente para não pensarmos mais em contratos em Portugal». Fariam 43 concertos em universidades e teatros de 37 estados diferentes, entre os quais o teatro da Metro Goldwyn Mayer, em Hollywood e Las Vegas. Após nova digressão por Angola e Moçambique - e uma noite de música africana durante o primeiro teste do Festival de Vilar de Mouros (que teria a sua grande vez em 1971) - seguiu-se a primeira actuação do Duo Ouro Negro no Japão, em Osaka, durante a Expo-70, com dois espectáculos especialmente concebidos para o Osaka Hall, a sala maior do recinto.

E de facto - quase confirmando as previsões de Carlos Robalo - nos anos seguintes a carreira do grupo desenvolver-se-ia principalmente fora de Portugal Continental - uma longa estadia no Oriente, ao longo da qual foram editados vários discos do Duo no Japão, entre os quais o LP «O Espectáculo é Ouro Negro»; concertos em Angola, no Brasil e em Paris. A digressão de lançamento do álbum «Epopeia» foi lançada em Angola e na Austrália. Actuaram no Festival Mundial de Televisão em Knock Lezut, na Bélgica. Em Lisboa, o espectáculo «Blackground» recebeu novamente o Prémio da Imprensa, e o grupo manifestou a sua intenção de abandonar a criação de canções fúteis como «Maria Rita» e «Silvie» para se empenharem essencialmente na divulgação do folclore angolano. Haviam prosperado nos negócios, e tornaram-se sócios de uma empresa mineira em Angola, de que Milo era o presidente da administração. Raul descobrira entretanto o interesse pela pintura, tendo feito a sua primeira exposição em Lisboa, em 1973.

Em Fevereiro de 1974, entrevistado por Regina Louro para a revista «Flama», Milo apontava, com algum sarcasmo, algumas razões para há muito tempo não actuarem em Portugal: «Quais são os artistas portugueses que têm actuado aqui? A verdade é que não há um sítio, uma casa de music-hall para cantarmos. Os teatros têm os seus elencos, os cinemas o que querem é vender filmes, a televisão contrata como vedetas cançonetistas que lá fora ficam num plano inferior a nós. Ao artista português mais não resta do que esperar pelo Verão para ir a feiras, festas na província, ou a um ou outro casino nas estâncias balneares. Fora desse período está condenado a uma carreira internacional». Após a Revolução, a carreira do grupo prosseguiu, com um natural incremento de extroversão e libertarismo psicadélico. Nesse ano compuseram o tema «Baile dos Trovadores» para o festival RTP da Canção, interpretado por Rita Olivais. Em 1975 fizeram novas digressões nos EUA e na Europa, tendo apresentado na Alemanha o espectáculo «Blackground», com transmissão pela Eurovisão. Em 1976, nova digressão nos Estados Unidos, a que se seguiram três concertos no Festival de Perth, na Austrália, e uma reaparição no Olympia de Paris para um concerto único, do qual resultou um álbum gravado ao vivo.

A partir do final dessa década, a carreira do Duo Ouro Negro assumiria um ritmo mais calmo e uma maior concentração no trabalho de estúdio, de que resultaram álbuns como «Lindeza» (1978), o duplo álbum «Blackground» (1980), «Aos Nossos Amigos» (1984) e «África Latina» (1986). Pelo meio fizeram algumas grandes produções em palco, como o espectáculo «Império de Iemanjá», apresentado ao vivo no Teatro da Trindade em 1981 com um elenco que incluía 23 elementos, entre cantores, músicos e bailarinos. A morte de Milo, no final dos anos 80, encerraria a carreira do Duo Ouro Negro. Raul Indipwo encetou uma carreira a solo mas, após a criação da Fundação Ouro Negro, tem actuado essencialmente em saraus e espectáculos de benemerência.


© Jorge P. Pires (11Fev1997)