
O director-adjunto de informação da SIC, acicatado pelos rumores em torno do novo livro de
Manuel Maria Carrilho, decidiu começar a atacar a obra com todo o fogo de artilharia da «sua» SIC-Notícias na noite de quarta-feira passada, pelo menos um dia antes de o dito livro ser apresentado publicamente e lhe chegar então às mãos. O que, se constitui um procedimento nada defensável numa pessoa normalmente sensata, é acção digna de procedimento severo quando levada a cabo por um jornalista no exercício da sua profissão - é recente o exemplo do crítico de teatro do
New York Times que foi imediatamente despedido após o jornal ter publicado a sua crónica sobre uma peça de teatro que... fora cancelada à última hora.
Coisas dessas, porém, só acontecem ainda noutros países. No nosso alegre jardim, os (maus) exemplos vêm de cima: e é assim que o director-adjunto, longe de assumir os erros próprios, ainda hoje vem assinar uma
«crónica», publicada no sítio internet da estação que o emprega, a qual se inicia, singelamente, com a frase «
Já se disse quase tudo sobre o livro de Manuel Maria Carrilho».
É claro que a frase não foi escrita com propósitos de boa fé, ou de adequação à realidade, pois qualquer pessoa sã é capaz de discernir que, três dias após o lançamento de um livro, tudo está ainda por dizer sobre ele; e, no caso presente, que há ainda muitas ilações a extrair.
Trata-se, pois, de um tiro com silenciador, de uma jogada de ocultismo inquisitorial, de uma tentativa desajeitada de esconder o óbvio; atitude tanto mais bizarra quando vinda de alguém que deveria respeitar o, e mesmo pugnar pelo respeito do, Código Deontológico da profissão que exerce. Código esse, aliás, que sempre foi taxativo na sua exigência de Rigor, Honestidade e Isenção, tal como os bons costumes e a civilidade sempre exigiram que se pensasse minimamente antes de se emitir qualquer opinião.
O texto de Arthur Schopenhauer que recentemente traduzi para português -
«A Arte de Ter Sempre Razão» (editado esta semana pela
Frenesi) - surge-me assim mais actual do que antes, bem como as máximas do sábio alemão, desta vez aplicadas a um reino televisivo cujos pés de barro se desfazem à vista de todos.
Dizia ele que «
As gentes comuns têm um profundo respeito pelos especialistas de todo o género. Ignoram que a razão pela qual se faz profissão de uma coisa não é o amor dessa coisa mas do que se lucra com ela - e que quem ensina alguma coisa raramente a conhece a fundo; pois se a estudasse como deveria, em geral não lhe restaria tempo para ensiná-la». E, passado um século e meio, os factos continuam a dar-lhe razão.
Logo que possível voltarei aos livros: o de Manuel Maria Carrilho, e o de Schopenhauer.